segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O dia em que a Fofa latiu

Até aquele domingo, todos pensávamos que a cadela adotada era muda. O máximo que ela fazia de ruído era um tipo de uivo, quando chegávamos em casa e ela demonstrava que estivera com saudade. Recebia carinho na barriga gemendo de alegria e até corria pela sala atrás do meu filho. Mas latir, só mesmo naquele que foi um dos dias mais tumultuados das nossas vidas.

Choveu a noite toda de sábado. Na manhã de domingo, o nível do ribeirão nos fundos do prédio cobria o telhado da casinha da árvore, a uns cinco metros do solo. Mais uns dois metros e teríamos água nas garagens mais baixas. Na frente do prédio, os deslizamentos de terra botavam em risco as casas situadas no topo do morro. Os moradores das casas no nível da rua abandonaram as residências temendo o pior, que aconteceria algumas horas depois. Agitada, Fofa deu o sinal de que teria os filhotes naquele momento.

Em duas horas, nasceram seis filhotes, quatro machos e duas fêmeas. À tarde, as casas começaram a cair. A primeira foi destruída pela lama que deslizou morro abaixo. Outras três foram atingidas pela lama, mas permaneceram de pé. Duas casas desabaram do alto do morro. Uma delas derrubou outras três que estavam embaixo. Os escombros atravessaram a rua e foram parar na portaria do prédio vizinho. Assisti tudo da sacada do 14º andar. Só senti medo assim em alguns pesadelos.

Mas foi só à noite que a Fofa latiu. Pelo menos foi o que disse a menina que dormiu lá em casa junto com o namorado. O pessoal do exército levou-os até o prédio e pediu que alguém os acolhesse porque não poderiam voltar para casa naquela noite, por falta de acessos. Eu ouvi três latidos. Certamente não eram dos filhotes. E foram finos demais para serem do dobermann que estava no hall do nosso andar. O cão, grande mas manso, também foi acolhido porque teve que sair de uma das casas em frente ameaçadas pelos desabamentos.

Acho que foi por causa do cheiro dele que a Fofa latiu em defesa de seus filhotes. Mas certeza mesmo não tenho. Minha confiança ficou meio abalada naquele dia.

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